Ao longo de mais de três décadas atuando como consultor, acompanhei de perto como conflitos globais reescrevem as regras do jogo para diretores e donos de fábricas. Guerras não destroem apenas mercados distantes, elas elevam o custo de insumos, energia e logística de forma imprevisível, transformando a eficiência operacional de um diferencial competitivo em questão de sobrevivência.
A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, continua sendo um laboratório vivo. No Brasil, o preço médio de sete produtos-chave importados (petróleo, hulhas, adubos, trigo e alumínio) subiu 51% nos primeiros meses do conflito, quase três vezes o aumento médio das importações. Quase metade das indústrias de transformação, extrativa e construção registrou alta imediata nos custos de energia e combustíveis. Na Europa, o gás natural chegou a ultrapassar 300 €/MWh em picos, pressionando siderurgia, cerâmica, vidros e petroquímica. Em 2026, com reajustes contratuais ainda em curso, a volatilidade persiste.
O que aprendi nesses anos é simples e implacável: quanto maior o custo de insumos e energia, mais mortal se torna a ineficiência.
Imagine um cenário que já vi repetidas vezes: uma fábrica que opera com 75% de OEE em tempos de matéria-prima barata. Quando o preço do aço sobe 40% ou a conta de energia dobra, aquela mesma ineficiência, antes “administrável”, vira um rombo financeiro. Paradas não programadas que duram minutos passam a custar milhares de reais por hora. Retrabalho, que antes representava 3% do volume, consome matéria-prima cara demais para ser desperdiçada. Setups lentos que atrasam a troca de lote transformam-se em oportunidades perdidas de produzir mais com o mesmo custo fixo elevado. E a falta de visibilidade, relatórios manuais atrasados, planilhas desconectadas, impede que o diretor tome decisões ágeis quando o mercado muda da noite para o dia.
Esses elementos se tornam um ralo silencioso que suga o lucro. Não é exagero. Já vi fábricas com margens historicamente saudáveis entrarem em território vermelho em menos de seis meses porque não conseguiam enxergar, em tempo real, onde exatamente a energia estava sendo desperdiçada ou onde o retrabalho estava consumindo matéria-prima que valia ouro.
O que realmente faz a diferença
Resiliência não nasce de sorte nem de orçamentos generosos. Ela se constrói no dia a dia, com três pilares que resistem a qualquer turbulência:
- Visibilidade total do chão de fábrica, em tempo real;
- Eliminação implacável de paradas, retrabalho e setups ineficientes;
- Cultura de melhoria contínua que transforma dados em ações rápidas.
Quando o custo da energia ou de um insumo estratégico sobe, cada minuto ocioso e cada peça refeita pesa o dobro. A ineficiência deixa de ser um problema operacional e passa a ser uma ameaça existencial.
Em momentos como este, os diretores mais experientes não perguntam “como cortar custos”. Eles perguntam: “Onde estamos perdendo valor que nem percebíamos?” E é exatamente aí que a verdadeira eficiência revela seu poder.
A história mostra que as fábricas que saem fortalecidas de guerras e crises são aquelas que já haviam feito o trabalho silencioso de tornar cada real investido em insumos e energia o mais produtivo possível.


