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A Arca de Noé

Absalão era o que se podia chamar de um homem justo. Apaixonado por estratégia militar e armas de última geração, ele adorava lanças de longo alcance, flechas guiadas e a maior inovação bélica da época: o lançador de pedras! Era um líder nato.

Um dia, enquanto caminhava por um desfiladeiro, de repente — PUFF — surge uma nuvem de fumaça e uma voz de trovão:

— ABSALÃO!

Ele se jogou no chão. Só podia ser o Criador!

— ABSALÃO — continuou a voz — NÃO ESTOU NADA SATISFEITO COM A HUMANIDADE. ESTÃO TODOS POLITIZADOS, SÓ PENSAM NOS PRÓPRIOS INTERESSES E VIVEM EM GUERRA. O TRINÔMIO ADÃO-EVA-COBRA FOI UM DESASTRE… VOU MANDAR CHUVA POR 40 DIAS E 40 NOITES ATÉ COBRIR TUDO. VAI SER O “DILÚVIO”. QUERO QUE NASÇA UMA NOVA GERAÇÃO: GENTE PRÁTICA E OBJETIVA. CONSTRUA UM BARCO PARA VOCÊ E SUA FAMÍLIA E COLOQUE DENTRO UM CASAL DE CADA BICHO. VOCÊ TEM 120 DIAS. MEU CONTATO COM VOCÊ SERÁ O ARCANJO GABRIEL.

PUFF! A nuvem sumiu.

Absalão levantou pálido. Ele era o escolhido! Mas tinha um problema: ele não entendia nada de barcos ou navegação. Quatro meses era um prazo curtíssimo. Ele precisava de alguém técnico. Lembrou-se de um engenheiro naval chamado Noé.

Noé construiria o barco; Absalão seria o gestor do projeto. Foi falar com ele:

— Meu caro Noé, preciso de um barco… e dos grandes! — Pois não, chefe. Qual o calado, o tipo de carga e a rota de navegação? — Detalhes, Noé, meros detalhes! É para carga pesada e mar agitado. Vou levar a família e tudo o que tenho. — Certo. Temos madeira de boa qualidade aqui na floresta. Consigo dez carpinteiros e dez lenhadores e a gente levanta isso rápido.

Logo depois, Absalão chamou seu braço direito, Roboão:

— Roboão, vamos construir um grande barco. — Tô sabendo, chefe. Já ouvi os boatos. — O que você sugere? — Deixa comigo. Para a última batalha, pagamos oito dinheiros para guerreiros; esses carpinteiros são moleza. Já montei uma equipe com cinco recrutadores e dez examinadores para a seleção. — E o salário? — Entre oito e dez dinheiros, porque são “especialistas”. Mas, chefe, não quero mexer com burocracia de pagamento. Não seria melhor contratar um Gerente Financeiro? — Boa, Roboão! Procure alguém de confiança.

O projeto decolou. Escritórios foram montados, RH contratado e as finanças já tinham dono. Absalão, com seu dinamismo, comprou uma sede de madeira e contratou supervisores e seguranças.

— Senhor Presidente — disse a recepcionista — o engenheiro Noé está aqui com uns desenhos… — Minha filha, não me interrompa! Diga ao Noé para voltar depois do almoço.

Absalão virou-se para Jacó, outro aliado: — Jacó, preciso de gente leal. — Com certeza, chefe! Mas para guardar essa madeira toda, vou precisar de um almoxarifado, prateleiras, sistema de controle e uns auxiliares de estoque. — Justo. Mande fazer as prateleiras e fale com o Roboão para contratar o pessoal.

Nisso, entra Cloé, a secretária executiva: — Presidente, o Noé ligou de novo. Está desesperado para você aprovar os desenhos. — Ah, esse Noé… Sempre me amolando com densidade de madeira e cálculos chatos. Eu não posso aprovar isso sozinho. Diga a ele que vou criar o GT-BAR (Grupo de Trabalho do Barco) para analisar o projeto. Ele é bom de desenho, mas não entende nada de custos ou compliance!

Quinze dias depois, o organograma estava pronto: Diretoria de Logística (DL), Diretoria de Investimentos (DI) e Diretoria de Engenharia Naval (DEN). Criaram até um laboratório para analisar cupins e fungos na madeira.

Uma noite, Noé conseguiu falar com Absalão: — Presidente, desculpe vir à sua casa, mas o projeto está pronto e o GT-BAR ainda nem foi nomeado! O material está parado porque o laboratório não liberou o laudo e não tenho carpinteiros… Posso contratar os rapazes da vila? — Negativo, Noé. Eu sou o Presidente, mas tenho que seguir as normas. Não posso autorizar “quem eu conheço”. O projeto está nas mãos dos melhores profissionais do mercado. Boa noite.

Noé saiu sem entender nada. Ele só queria construir um barco.

Dia 25. Roboão entra na sala do chefe: — Aceita um cafezinho, chefe? Ou melhor, leite de cabra? Mandei distribuir para todo mundo. Mas tivemos que comprar 200 cabras, alugar um pasto e contratar cinco pastores para isso. — Você é um gênio do RH, Roboão! Aliás, Noé reclamou que não tem carpinteiros… — O Noé é um sonhador, chefe. Já aumentamos o salário, mas os candidatos não passam no teste psicotécnico! Se não passam na lógica, imagina no trabalho braçal?

Dia 40. Primeira reunião de diretoria. O Diretor da Engenharia reclamou que Noé estava desenhando em folha de bananeira e cortando árvore escondido à noite para adiantar o serviço. Quando sugeriram aumentar o salário do Noé, o Diretor de Investimentos surtou: — Esses técnicos são caros e não entregam! O senhor está gastando dinheiro treinando timoneiros e marinheiros para um barco que nem existe! — Antevisão estratégica! — respondeu Absalão.

Dia 80. Absalão estava orgulhoso: sua empresa tinha 1.200 funcionários. De repente — PUFF — a fumaça: — É o Arcanjo Gabriel! — ABSALÃO! COLOQUE AS PESSOAS DE MAIS PESO NO TOPO, SENÃO O EMPREENDIMENTO AFUNDA!

Absalão correu para o Noé: — Noé! Coloque um convés no topo do mastro para eu botar o pessoal do alto escalão lá em cima! — Mas, Presidente, isso vai contra as leis da física! O barco vai virar! — Não discuta! Foi uma ordem lá de cima! Cumpra-se!

Dia 100. Crise financeira. Os empréstimos vencendo e o caixa vazio. — Como vamos fabricar madeira? — gritava o Diretor de Logística — O laboratório não aprova a madeira daqui e o frete internacional está um absurdo! E esse Noé? O que ele fez até agora ganhando dez dinheiros? — Presidente — disse Cloé — verificamos aqui e o Noé não tem o diploma de Engenheiro Naval anexado na ficha de registro… — É verdade — admitiu Absalão — eu o contratei antes das normas de compliance. Roboão, demita o Noé imediatamente por justa causa.

Noé ficou possesso. Reuniu a família: — Vamos cortar essas árvores de qualquer jeito, mesmo com cupim, e fazer um barco. A gente aprende no caminho. Vamos levar uns bichos para garantir a janta. Mãos à obra!

Dia 120. O céu escureceu. Absalão chegou na empresa e não encontrou ninguém, exceto uma moça do telemarketing: — Cadê o povo? — Ai, senhor, tá todo mundo de aviso prévio. O plano de carreira não agradou… Mas se o senhor quiser, eu vou estar verificando para o senhor…

Absalão nem respondeu. Correu para o fax e mandou uma mensagem para o Criador pedindo mais prazo por causa da “crise global da madeira”. Resposta imediata: “NEGADO. O NÍVEL DA ÁGUA JÁ ESTÁ SUBINDO.”

A chuva desabou. Absalão e seus diretores corriam para o alto do morro, com a água já no pescoço. Enquanto se afogavam em processos, normas e organogramas, Jacó apontou para o horizonte:

— Chefe, olha lá! Um barco! E olha o nome na frente… ARCA DE NOÉ!

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